Dirigido pelo cineasta Kléber Mendonça Filho, Aquarius se apresentou no cenário cinematográfico nacional, em 2016, sob o viés crítico e carregado de significações. Assim como em “O som ao redor”, de 2013, primeiro longa do diretor, Aquarius manteve, de formas muito mais sutis, complexas problematizações acerca da propriedade privada, e do entrelaçamento entre memórias e espaços.

Cena de Clara, em frente ao Edifício Aquarius.

Gravado na cidade de Boa Viagem, em Recife, o filme conta com a impecável atuação de Sônia Braga e Bárbara Colen, que dão vida à protagonista Clara, jornalista, escritora e renomada crítica de arte. Aos seus 65 anos, Clara é proprietária de um dos apartamentos do Edifício Aquarius, localizado na área nobre da orla da praia de Boa Viagem. A trama se desenvolve a partir do momento em que representantes da Construtora Bomfim, batem à porta de seu apartamento, com generosas propostas para comprá-lo, afim de construírem, no local, uma versão mais luxuosa e moderna do condomínio.

Mais do que falarmos do enredo, será mais proveitosa uma pequena (e interminada) análise a respeito da estruturação da obra: seu começo, meio e fim.

O filme se inicia com fotografias, em preto e branco, de áreas litorâneas brasileiras. As fotos nos atentam para o pacato movimento de pessoas e veículos entre as ruas recifeanas. Em seguida, o estático preto e branco dá lugar à rebentação de ondas, na praia de Boa Viagem. Surge a “Parte 1”. Nesse momento, percebemos que o filme foi dividido em partes ou atos (três, no total), as quais contam com um título. Vamos começar do começo.

A parte 1 é intitulada “O cabelo de Clara”, e começa retratando o passado, no dia do aniversário de 70 anos de Tia Lúcia, figura marcante e enigmática no início da obra. É em meio a essas cenas iniciais que somos apresentados ao Edifício Aquarius, local onde acontecem as felicitações. Nesse momento, Clara (Bárbara Colen) usa cabelos curtos, justificados por um tratamento de câncer realizado no ano anterior. Enquanto os filhos de Clara tributam Tia Lúcia com a leitura de mensagens, a câmera foca, pretensiosamente, em vários móveis do apartamento. Entre eles, está uma cômoda antiga, a qual também é timidamente fitada pelos olhos de Tia Lúcia, enquanto essa se recorda de cenas da juventude, nas quais faz sexo sob o relato inanimado do móvel. Ao fim do discursos de aniversário, inicia-se um coro dos convidados; trata-se de uma das “Canções de Cordialidade”, de Manuel Bandeira e Heitor Villa-Lobos, chamada “Feliz Aniversário”. Essa curiosa cena corrobora com o caráter político do filme, enaltecendo a cultura popular brasileira, pelo simples fato de não se cantar a canção de aniversário “parabéns a você”, homogeneamente difundida nas festas brasileiras, mas escrita pelas irmãs norte-americanas Mildred e Patricia Smith Hill. Em seguida, o toca-discos da festa faz ouvir a voz de Gilberto Gil, em “Toda Menina Baiana”, enquanto os convidados dançam alegres e esperançosos.

Clara e Tia Lúcia.

Com isso, um corte discreto, com a câmera fixada na sala de estar do apartamento de Clara, dá lugar ao tempo presente, no qual se passa a maior parte do filme. A marcação temporal é elucidada quando entra em cena uma mulher de cabelos pretos e longos (Clara no presente), encenada por Sônia Braga. É a partir desse momento em que se abrem alas para a constituição sólida da identidade da protagonista, num movimento magistral de descortinamento de sua vida, seus comportamentos, suas feridas e suas reflexões. Clara carrega consigo um discurso convicto e, de certa forma, claro e coeso, em contraste com o caos contemporâneo. Como dizia Antonio Cândido, a força da arte se encontra na sua capacidade de ordenamento da realidade. Clara exala, em todas as suas instâncias, pura arte.

Cena de gravação, com Sônia Braga, Kléber Mendonça Filho e produção.

(Estava com vontade de destrinchar, sob o meu ponto de vista, o filme ao longo desses parágrafos. Mas acho que isso ficará pra depois. Ainda preciso digeri-lo mais um pouco.)

Por: Átila Soares.