O poema de Drummond, integrante do livro Claro Enigma, de 1951, carrega nos versos a visão de um eu-lírico animalesco e distante, observando e refletindo sobre o cotidiano humano. Abaixo, o poema:

“UM BOI VÊ OS HOMENS
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrânias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciume
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimavam a erva e a água,
e difícil, depois disso, é ruminarmos nossa verdade.”
(DRUMMOND, 1951).

Inicialmente, devemos nos atentar à identidade do eu-lírico que toma a palavra no primeiro verso: “Tão delicados [eles] (mais que um arbusto) e correm / e correm de um para outro lado, sempre esquecidos / de alguma coisa.”. Nota-se um voluntário distanciamento do enunciador (eu-lírico) em relação ao assunto sobre o qual ele fala, deixando claro que ele não faz parte dos seres que “correm / e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos.”. Numa primeira leitura, fica claro que o referido eu-lírico é “um boi”, que observa, narra e critica os comportamentos dos “homens” que “vê”, como propõe, antes de tudo, o título “um boi vê os homens”. Essa interpretação se sustenta e é corroborada por outras passagens do poema. Sabendo disso, podemos ir além.

Tomemos os seguintes versos:

“Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço.”

Como num gesto conclusivo, o eu-lírico (o boi) está certo de que falta algo essencial na vida dos homens que observa, já que esses últimos, mesmo se apresentando como nobres e sinistros, não escutam “o canto do ar”, nem os “segredos do feno”. Em outras palavras, acrescenta que os homens parecem não compartilhar da mesma visão “do espaço”, que têm o eu-lírico e seus pares. Corroborando com essa linha de raciocínio, cita-se a unidade paradoxal da modernidade, tão bem colocada por Marshall Berman (1982): o espírito inquieto do homem moderno (assim como dos homens fitados pelo boi), cercado de complexas relações de trabalho, maquinários e tecnologias, num turbilhão que acelera o ritmo da vida, enquanto destrói e (re)constrói a nova realidade. Tais mudanças provocadas no/pelo ambiente moderno, ofuscam tudo de sólido que havia desde a antiguidade, tudo que é sólido desmancha no ar, inclusive, o próprio homem.

Em consonância com o esfarelamento humano e material dos últimos séculos, Drummond acrescenta que “toda a expressão deles [dos homens] mora nos olhos – e perde-se”.

“[…] e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias.”

Nos dois fragmentos de versos acima, o boi observa a impossibilidade de constância e organização na vida dos homens. Sobre esse aspecto, pontua Berman (1982):

“[…] à medida que se expande [o processo de modernização], o público moderno se multiplica em uma multidão de fragmentos, que falam linguagens incomensuravelmente confidenciais; a ideia de modernidade, concebida em inúmeros e fragmentários caminhos, perde muito de sua nitidez, ressonância e profundidade e perde sua capacidade de organizar e dar sentido à vida das pessoas.” (BERMAN, 1982).

Com isso, podemos, de forma tímida, inferir uma espécie de apelo e crítica à própria (re)produção simbólica (e artística) moderna, já que, como pontuado em Berman (1982), parte da era moderna perde o contato com as raízes de sua própria modernidade, impossibilitando o que o boi chama de organização em “formas calmas, permanentes e necessárias”.

Para finalizar, acrescento que não me propus a fazer, a rigor, o trabalho de um crítico literário. Colo aqui, apenas uma das possibilidades de interpretação do texto literário. Seria um prazer saber o que vocês pensam tambem! Comente, sem medo de ser feliz!

Por: Átila Soares.

Andrade, C. D. (1951). Claro Enigma. São Paulo: Companhia das Letras. Berman, M. (1982). Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo : Companhia das Letras.