Escrito e dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Bacurau é uma miscelânia de gêneros sobre a qual se apresentam das mais sutis às mais escancaradas críticas. Produzido e filmado no sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte, o filme tem início, ao som de Gal Costa cantando “Não Identificado”, com a câmera partindo do espaço sideral e indo em direção à Terra, mais precisamente, ao nordeste brasileiro, que, pela imagem do espaço, está desprovido de luzes, talvez, denunciando uma espécie de invisibilidade geográfica da região. Ali, no oeste pernambucano, está localizado o município de Serra Verde, onde, no povoado que dá nome à obra, a trama se desenvolve. Essa primeira tomada situa Bacurau no universo, em um microcosmo sul-americano, compartilhando a sua existência com todos os outros seres sertanejos.

O filme permeia o modo com o qual a comunidade se organiza de forma autossuficiente para contornar a negligência do prefeito e resolver os problemas locais. Esse nível de organização está fundado sobre raízes culturais profundas, explícitas na valorização da memória do povoado, seja no emocionante cortejo à Dona Carmelita (interpretada por Lia de Itamaracá) ou na importância dada ao museu de Bacurau.

Cortejo a Dona Carmelita

O papel da memória na construção de um povo aparece do início ao fim da obra. No início, há uma cena fascinante protagonizada por Sônia Braga, no papel da doutora Domingas. Enquanto Dona Carmelita é velada, Domingas aparece embriagada, se equilibrando sobre uma cadeira, e sob um estado visceral de fúria e emoção, profere xingamentos à falecida, demostrando um sentimento de raiva. Ao decorrer do filme, esses sentimentos são traduzidos em revolta, porque, para a médica, a morte daquela senhora significava uma grande perda pessoal e uma parte da história de Bacurau sendo enterrada.

Domingas durante o velório

Durante a despedida à velha senhora, toda a comunidade sai em procissão, cantando “Bicho da Noite”, de Sérgio Ricardo, música que faz alusão ao pássaro bacurau, sendo este um costume mantido por esse povo. Já o museu, que por si só é um lugar de preservação da memória, é tido como referência turística pelos moradores e seu interior é apresentado ao espectador, ao final do filme, quando Terry (Jonny Mars), um dos forasteiros, fica admirado com a existência de um espaço dedicado à história de Bacurau e com as peças expostas, o que o leva, inclusive, a furtar uma delas.

Essa raiz cultural se mistura com a formação da identidade do povoado, evidenciada pelo vínculo estabelecido entre o lugar e as pessoas que ali nasceram – as quais sempre retornam a Bacurau – e resumida no discurso de Sr. Plínio (Wilson Rabelo), durante o cortejo de Dona Carmelita, quando ele descreve as características do povo e as diversas profissões que os dali desempenham. Em sua fala, ele reforça que “antes de tudo, quem nasce em Bacurau é gente.”

Partindo desse princípio, ao desembaralhar as intenções dos forasteiros, é notável que a caça de gente, além de almejar o extermínio de uma população, promove a morte da memória de um povo. Norte-americanos que chegam ao oeste pernambucano, em um lugar cuja placa de boas-vindas diz “Bacurau: se for, vá na paz”, para acabar com a paz dos moradores, como se já não bastassem os problemas de escassez de água que os assola.

Assim, o lugar perderia a sua história, a sua cultura, e a sua população, bem como o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Em suma, deixaria de existir, algo necessário para que as ações bárbaras não viessem à tona. Eles arquitetam o plano de calar o povo de fora para dentro, seguindo a sequência ordenada de retirar o lugar do mapa, cortar o sinal telefônico, cortar a luz, matar os moradores um a um, até que, com o último a ser morto, morresse, também, Bacurau.

E aqui podemos voltar à função do museu na obra, relembrando a cena na qual os motoqueiros do sudeste se recusam a visitá-lo. Tivemos a impressão, seguindo o raciocínio historiográfico, de que se os motoqueiros tivessem feito a visita ao museu (e, consequentemente, conhecido a história de Bacurau), a maior parte da tragédia poderia ter sido evitada, nos remetendo à famosa frase atribuída a Peter Burke: a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer. Como o objetivo dos forasteiros era fazer Bacurau ser esquecido, seria incongruente eles conhecerem a história do lugar, porque, assim, ele sobreviveria neles próprios.

Pacote, Tereza e Erivaldo durante a aparição dos motoqueiros.

Gostaríamos de ressaltar dois donativos deixados por Tony Junior (Thardelly Lima), o prefeito, em Bacurau logo no início. O primeiro são os analgésicos tarja preta, cuja função, bem explicada por Domingas é atuar como inibidores do humor, o que, muitas vezes, deixa a pessoa lesa. O curioso era que esses remédios estavam em forma de supositório. A hipótese levantada aqui, talvez óbvia para muitos espectadores, é de que a intenção fosse realmente dopar os moradores a fim de deixá-los menos aptos a reagir aos ataques dos forasteiros, ou seja, fazê-los “tomarem no cú”. O outro donativo a ser destacado são os caixões, os quais podem ser interpretados como um singelo presságio do que Tony já possuía conhecimento. Possivelmente, por isso, ele tenha levado um aparelho para os eleitores votarem caso não pudessem ir no dia da eleição.

A resolução do conflito do filme se dá a partir do retorno, sob aplausos, de Lunga (Silvero Pereira), que, como o bacurau, voa a curtas distâncias para fugir do susto. Ele monta um esquema para lutar contra os caçadores de gente e, então, sob efeito de um poderoso psicotrópico (e aqui, incluímos todos os efeitos metafóricos aos quais essa droga pode remeter), em um espetáculo de ação ultra sangrento, os forasteiros, tal como o bando de Lampião, em 1938, são mortos, decapitados e expostos em praça pública. O líder dos estrangeiros, no entanto, é preso vivo em uma espécie de cela subterrânea no centro do povoado, fazendo com que um símbolo do ocorrido fique para sempre sob os pés dos moradores. Percebe-se, pois, um princípio coletivo de preservação desse acontecimento demonstrado, também, durante a limpeza do sangue presente no chão e nas paredes do museu. A senhora coordenadora da limpeza diz: “Limpar tudo e não tocar nas paredes. Eu quero que fique assim”. A impressão daquelas marcas de sangue macabras nas paredes servirá como lembrança de como as mudanças históricas acontecem com base nas contradições sociais e de que os processos revolucionários são, necessariamente, violentos. Sendo assim, o que garantiu a manutenção da história de Bacurau foi, de certa forma, uma revolução. Para corroborar com essa hipótese, podemos citar a música “Requiem para Matraga”, de Geraldo Vandré, um dos símbolos do movimento de guerrilha no Brasil, trilha sonora dessa revolução.

Para acrescentar, podemos perceber, tanto no filme, como nas imagens elencadas aqui na postagem, a exploração – comum nos filmes de Kléber Mendonça Filho – dos corpos reais e não midiatizados pela ditadura dos corpos. Em Bacurau há gente de verdade, em carne, osso e alma.

Bacurau, um lugar, no oeste de Pernambuco, onde acontecem coisas surreais. Onde falta água. Onde estrangeiros se sentem no direito de explorar como quiserem. Onde a população se esconde do prefeito e aplaude o “bandido” e, em momentos de apuros, podem contar com o “bandido” e não com o prefeito. Onde um povo é caçado, como ocorre com tribos indígenas e comunidades quilombolas brasileiras e de outras partes do mundo.

Trata-se de um filme tão genial e complexo que se fôssemos discorrer sobre cada cena ou trecho importante da obra, ficaríamos aqui por mais alguns dias, pois, aparentemente, cada palavra dita e cada recorte da câmera tem o seu propósito na construção do enredo. Por isso, encerramos por aqui. Esperamos que tenham gostado. Se for comentar, comente na paz.


Autores: Joana e Átila