Quando eu estava procurando informações pra comporem esse texto, me deparei com um trecho de uma carta escrita por Carlos Drummond de Andrade, endereçada a Mário de Andrade. O título da carta é sugestivo e resolvi colocá-lo, também, como título do post: colóquio das estátuas. Aí vão alguns um trechos.

“Sobre o vale profundo, onde flui o rio Maranhão, sobre os campos de Congonhas, sobre a fita da estrada de ferro, na paz das minas exauridas, conversam entre si os Profetas.

Aí onde os pôs a mão genial de Antônio Francisco, em perfeita comunhão com o adro, o santuário, a paisagem toda – magníficos, terríveis, graves, eternos – eles falam de coisas do mundo que, na linguagem das Esculturas, se vão transformando em símbolos.” (DRUMMOND, 1958).

A cidade de Congonhas, assunto da carta de Drummond, se encontra no centro do estado de Minas Gerais, a cerca de 80 km de Belo Horizonte. Responsável por abrigar igrejas e obras de referência para a estética barroca-rococó, Congonhas descansa sobre o vale do rio Maranhão, capilarizada por correias que transportam o minério de ferro, e que um dia já transportaram – de outros modos – o ouro das Gerais.

Internacionalmente conhecido pelos profetas esculpidos por Antônio Franscisco Lisboa, o Aleijadinho, o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos deixa sua marca mineira como Patrimônio da Humanidade, reconhecido pela UNESCO, desde 1985.

Ao tentar destrinchar as significações do conjunto arquitetônico da Basílica de Congonhas, encontrei, no repositório da Faculdade de Letras – FALE – da UFMG, um texto da professora Eliana Scotti Muzzi, proferido na mesa redonda “O Cotidiano das Revoluções e suas Representações nas Artes”, proposta pela PUC – Minas, em 1989. Em seu discurso, Eliana propõe abordar o complexo arquitetônico da Basílica como um texto.

Inicialmente, a professora nos apresenta similaridades e diferenças entre a Basílica congonhense e sua inspiração artística: a Basílica de Braga, em Portugal. Abaixo, temos a foto de Congonhas e de Braga, respectivamente.

Ambos os santuários apresentam os profetas do Antigo Testamento e capelas dos Passos da Paixão de Cristo, representando o Novo Testamento. Ao voltarmos os nossos olhos ao conjunto de Congonhas, percebemos uma inversão cronológica do tempo Bíblico. À medida em que nos aproximamos da Igreja, partimos do Novo Testamento, posto na inclinação do terreno, em zigue-zague, e chegamos aos Profetas do Antigo Testamento. Esses, por sua vez, inauguram uma outra dimensão, próxima aos céus, a qual deixa de lado as cores e o plano inclinado dos Passos, partindo para a simultaneidade e atemporalidade das estátuas de pedra sabão. Como defendido por Eliana, os Profetas ocupam um espaço de anulação do caráter cronológico da própria História.

Passadas as estátuas dos Profetas, chegamos ao adro que precede o portal da igreja. A professora o define como um espaço ambíguo e intermediário. Um espaço vazio, que separa o sagrado, do interior da igreja, e o profano, da colina e da cidade. Essa ambiguidade abre brechas para a associação criada pelo escritor cubano Severo Sarduy, que relaciona a arte barroca à estrutura de uma elipse (tal qual a lei de Kepler, para o movimento planetário), em contraste com a estrutura circular (de Galileu Galilei), cosmogonia anteriormente difundida. A elipse, figura única, mas composta por dois focos, ex-cêntrica por definição, entra em consonância com a proposta barroca de desdobramentos e ocultações: uma dialética luz – sombra, curva – reta, cheio – vazio.

“Esse espaço circunscrito por fronteiras fluidas e ambíguas é articulado pelas estátuas dos Profetas que o ocupam segundo as leis de uma simetria, que nada mais é que uma modalidade do princípio fundamental de desdobramento. Cada estátua, cada gesto se espelha num duplo simétrico: em posição frontal. Isaías e Jeremias introduzem ao espaço profético, enquanto que Daniel e Oséias, face a face, guardam sua saída; o braço direito de Abdias, que aponta para o céu, e o reflexo invertido do braço esquerdo de Habacuc, em posição equivalente; Jonas e Joel retomam o procedimento em seus perfis voltados para o exterior e assim por diante.” (MUZZI, 1089).

Incrustrados no corpo rochoso dos profetas estão os filactérios, placas sobre as quais foram tecidos seus respectivos nomes e mensagens bíblicas em latim. O colóquio das estátuas se vale, portanto, tanto de suas imagens, os doze atores nascidos do esteatito, quanto de seus “diálogos”, presos a cada corpo imóvel.

Com tamanhas obras, de variadas estruturas semióticas, as quais evocam pretensos jogos de significações, é de se pensar que Aleijadinho, o artista, tenha deixado uma assinatura, assim como se vê em pinturas, músicas e livros. Entretanto, até hoje, nada foi encontrado, além de suas assinaturas em recibos de pagamento. A assinatura se perdera com o tempo? O artista teria deixado de assinar a obra propositalmente? Intrigada por essa questão, a professora Marilei Moreira Vasconcellos, em seu livro “Aleijadinho – Iconografia Maçônica”, conjectura que Aleijadinho possa ter deixado uma assinatura na forma de um acróstico, um jogo de letras e versos. De acordo com ela, isso também explicaria a escolha dos profetas. Vejamos:

* De acordo com a autora, como não havia profeta com nome que começasse com L, Aleijadinho pode ter escolhido Baruc, pois a palavra baric, em hebraico, significa “louvado”.

A hipótese de Marilei ainda permanece no terreno das possibilidades, mas tem sido citada em materiais de referência bibliográfica sobre a obra, como no livro Arte e Paixão, de Fábio França.

Por fim, gostaria de terminar citando, novamente, a carta de Drummond a Mário de Andrade. No parágrafo seguinte, o poeta se pergunta, em que outro lugar, senão no seio das Minas Gerais, poderíamos encontrar tamanha obra de arte, a qual estabelece relações paradoxais e antitéticas entre o sagrado e o profano, entre a poeira e a limpidez das águas, entre o silêncio e o ritmo carregado dos vagões?

“Onde mais poderíamos conceber reunião igual, senão em terra mineira, que é o paradoxo mesmo, tão mística que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita, e contudo mantém com o universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se, como nenhuma outra, com as dores do mundo, no desejo de interpretá-las e leni-las?” (DRUMMOND, 1958).

Bibliografia:

FRANÇA, F. (2015). Arte e Paixão: Congonhas de Aleijadinho. Belo Horizonte: C/ Arte.

MUZZI, E. S. (Maio de 1989). Os profetas do Aleijadinho: figuras da opressão. O cotidiano das revoluções e suas representações nas artes.

UFMG. (2016). Percursos Barrocos. Colóquio das estátuas. Fonte: http://percursosbarrocos.blogspot.com/2016/

VASCONCELLOS, M. M. (s.d.). Aleijadinho: iconografia maçônica. São Paulo: Espírita Radhu LTDA.

Por: Átila Soares.