Muitas pessoas que nos acompanham no blog são pretendentes a uma vaga na Universidade pública. Na grande maioria dos casos, essas pessoas passarão por exames de seleção como o ENEM. Nesse caso, os alunos terão de redigir, em um dos dois dias da prova, o famoso “texto dissertativo-argumentativo” – a redação.

Isso mesmo. Num microespaço de 30 linhas estreitas, os alunos precisam apresentar o tema proposto, provar que têm o domínio da “norma padrão” do Português Brasileiro, elencar conhecimentos extralinguísticos que corroboram com a sua visão sobre o problema, e propor soluções e políticas de enfrentamento. Coisa simples, não?

Se você compreendeu a ironia no final do parágrafo anterior, talvez você concorde comigo que esse tipo de prova é meio doentio. Ainda mais quando se têm, além da redação, 90 questões para serem resolvidas nas 5 horas e meia de exame. O cansaço físico e cognitivo tomam conta da gente nas primeiras 2h. Muitos (como eu) fazem de tudo pra travar todas as necessidades fisiológicas, como ir ao banheiro, comer e se hidratar. Talvez seja, até, uma violência institucionalizada. Mas esse não é o assunto desse post.

Como vocês podem perceber, escrever um texto minimamente sensato e inovador nessas condições, pode ser uma tarefa mais complicada do que parece. Por conta disso, muitos estudantes optam pelo uso de “fórmulas de redação”. Vou explicar. Uma “fórmula de redação” é uma estrutura pré-pronta, normalmente decorada pelos alunos, na qual eles só terão que “preencher as lacunas” de acordo com o tema que foi proposto. Isso mesmo. De acordo com os grandes teóricos “formulistas”, você nem precisa pensar pra mandar um 900 na redação do ENEM. Funciona? Pode até funcionar, mas não será esse o tipo de técnica (se é que podemos considerar isso uma técnica) que eu vou propor aqui.

Fiz as últimas 4 provas do ENEM. Ao longo desses exames, consegui experimentar diferentes maneiras de escrever a redação. O jeito que eu mais gosto (e que deu mais certo) consiste na construção do texto a partir de um mapa mental. Vamos lá!

Afinal, o que diabos é a redação do ENEM?

Como dito anteriormente, e não me atendo a conceitos muito específicos sobre gêneros e tipos textuais, um texto dissertativo-argumentativo nada mais é do que um texto em que se defende um ponto de vista (uma tese), partindo de argumentos selecionados. Basicamente, você deverá dizer a sua opinião sobre determinado assunto, mas sem deixar transparecer explicitamente “quem está falando”.

Vamos partir do pressuposto de que para escrevermos qualquer texto, precisamos entender um pouquinho das suas limitações: então, o que não pode ter na sua redação do ENEM?

Não faça isso:

  1. Expressões do tipo “eu acho que”/ “na minha opinião”;
  2. Não atente contra nenhum Direito Humano (talquei?);
  3. Evite gírias;
  4. Não faça uma letra feia (é sério);
  5. Jamais se preocupe em decorar frases prontas que são atribuídas a “grandes filósofos e pensadores”. Detenha-se às ideias.

Acho que todos estamos carecas de saber sobre essas coisas, mas sempre bom relembrar…

Realmente, vários são os jeitos de você falar sobre um determinado assunto, defender um ponto de vista sobre isso e levantar argumentos que corroboram com a sua visão de mundo. Vou mostrar aqui como eu normalmente faço para construir uma boa redação. Não é um jeito infalível (acho que isso nem existe), mas com um certo treino, pode trazer ótimos resultados. Perceba que a construção desse tipo de texto demanda uma boa amarração das ideias, ou seja: o problema apresentado na introdução deve ser destrinchado no corpo do texto e resolvido no último parágrafo. A seguir, o esquema. Vou explicá-lo abaixo.

Como mostra o esquema, eu costumo dividir a minha redação em 4 parágrafos:

1º parágrafo: aqui você deve introduzir o assunto (ainda faremos um post no blog sobre isso) e deixar clara a sua opinião sobre o tema. Vou contar um segredo pra vocês: normalmente, na hora de montar esse esqueminha para as minhas redações, deixo esse tópico por último. Eu sempre começo esquematizando as ideias para o último parágrafo (ou seja, resolvendo o problema proposto no tema). Dessa forma, eu tenho ideias mais claras na minha mente sobre quais problemas devo enfatizar no corpo do texto e qual a minha opinião sobre o todo (a minha tese). Lembrem-se da tal amarração das ideias. A coisa precisa fazer sentido.

2º parágrafo: agora, introduzido o problema, você precisa começar a expô-lo. Destrinche um pouco mais. Como diabos ele ocorre? Se você souber, cite um exemplo. Existe alguma bibliografia (pensador(a), livro, filme, jogador(a) de futebol, cientista,…) que comenta sobre esse problema ou algo relacionado? Sinta-se à vontade para expor.

3º parágrafo: certo. Introduzimos o assunto, temos uma opinião formada, expusemos um pouco de como o problema acontece. Agora escreveremos as consequências desse problema. O que esse problema tem causado? Existem lugares (específicos) prejudicados? Algum grupo social é mais prejudicado? Conhece algum(a) pensador(a) que discorra sobre isso? Manda ver!

4º parágrafo: como eu já disse o meu segredo, esse é o parágrafo pelo qual eu começo a pensar o meu texto. A partir do que eu escrevo nele, desenvolvo todos os argumentos para os parágrafos que vêm acima. Isso me dá uma maior amarração das ideias. Faz com que o primeiro parágrafo se relacione com todos os demais. Aqui, por fim, você deve constatar que o problema precisa de uma solução (e dar essa solução). Sim, pode inventar. Você deve usar a imaginação pra responder algumas perguntinhas básicas: 1) o que deve ser feito?; 2) como deve ser feito?; 3) quem deve fazer?; 4) por que deve ser feito?; 5) para quem deve ser feito?. A cada pergunta dessa não respondida, serão cortados uns 40 pontos da sua nota final. Certifique-se de que respondeu todas!

Feito o esqueminha, agora você vai começar a passar esses parágrafos à limpo. Faça as alterações que quiser, troque as palavras que bem entender. Sinta-se à vontade para brincar com o texto. Vou deixar no próximo post a minha redação do ENEM 2019, sobre “democratização do acesso ao cinema no Brasil” e o esqueminha que eu desenhei na hora da prova pra me ajudar a escrever. Consegui tirar 960, perdendo apenas 40 pontos na competência da norma padrão. Tenho vários outros esqueminhas de várias outras redações. Talvez seja interessante postá-los aqui… Além disso, deixo abaixo um modelo desse esquema para vocês baixarem, e começarem a preencher. Infelizmente, uma boa redação é sinônimo de treino. Como dizia um dos meus professores, escrever dói. Espero que o processo de vocês seja o menos dolorido possível. Abraços!

Baixe o esquema para treinar:

Por: Átila Soares.