Existe uma famosa afirmação atribuída a Albert Einstein, em que, caso as abelhas fossem extintas, a humanidade duraria apenas quatro anos. Independente do famoso físico alemão ter dito isso ou não, a verdade é que diversas pesquisas têm demostrado a importância das abelhas para a vida na Terra. Muito além do mel, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), três de cada quatro culturas que produzem frutos ou sementes para consumo humano no planeta são dependentes das abelhas. Há cultivos que chegam a depender até 100% das abelhas, como as amêndoas.  Somente esses fatos já seriam o suficiente para a ONU ter criado um dia mundial para estes insetos, como o fez com o dia 20 de maio.

A vida das abelhas, porém, não tem sido nada fácil. De dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, cerca de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas – isso somente em alguns estados, onde ocorreram as pesquisas: 7 milhões em São Paulo, 45 milhões em Mato Grosso, 50 milhões em Santa Catarina e 400 milhões no Rio Grande do Sul. De acordo com especialistas e pesquisas laboratoriais analisadas pela Agência Pública e Repórter Brasil em 2019, é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil o principal causador das mortes registradas no país – o uso e venda do Fipronil, por exemplo, é proibido em diversos países da União Europeia há mais de uma década. Aliás, o Brasil tem andando na contramão do mundo em relação aos agrotóxicos: em 2019 foi batido o recorde na liberação destes produtos e até agora, em 2020, já se somaram mais 112 novas substâncias.

Inclusive, a morte das colônias de abelhas não é um fato novo. Houve o início de um ciclo de picos na década de 70, período em que diversos princípios ativos de agrotóxicos começaram a se popularizar pelo mundo. No início deste século se atingiu uma proporção tal, fora as situações e locais não documentados, que a mortandade chegou a 70% das abelhas em regiões inteiras dos Estados Unidos. Já existe até um termo para tratar do fenômeno: distúrbio do colapso de colônias (DCC). Além dos agrotóxicos, fatores como o desmatamento estão diretamente relacionados a esse sumiço das abelhas do mundo.

Há que se considerar, nessa conta toda, um grande grupo que sempre é invisibilizado: as abelhas nativas. Isso mesmo, porque nessa conta toda entram apenas as abelhas criadas comercialmente, as amplamente conhecidas abelhas “de abdômen preto e amarelo” do gênero Apís – trazidas da Europa e África no passado. Mesmo que no Brasil não tem sido fácil ser uma abelha, somos os grandes campeões no número de espécies em todo o mundo, para além das espécies solitárias (que não fazem colmeia), temos cerca de 300 espécies sociais originárias – e nenhuma ferroa, porque possuem ferrão atrofiado. Esse número gigantesco de espécies tais como a uruçu, a jataí e a mandaçaia, desconhecidas por grande parte da população, são as responsáveis pela polinização de até 90% da flora nativa, dependendo do ecossistema. Como evoluíram conjuntamente com os ecossistemas nativos, há estudos que demonstram, inclusive, que a eficiência de polinização das abelhas nativas, os Meliponíneos, é muitas vezes superior frente às Apís (que já são muito significativas).

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Fonte: @entreespinhoseferroes.

O desconhecimento em relação as abelhas nativas do nosso país traz um risco gigantesco para elas. Por serem pouco faladas são também pouco estudadas e protegidas. Por isso, falar de abelha, antes de tudo, é um movimento político. Para se ter uma ideia, até hoje não existe uma lei específica que trate sobre a criação de abelhas nativas em âmbito federal. E até 2004, quem as criava, fazia isso na ilegalidade.

Há um grande hiato na história da criação de abelhas nativas. Desde que chegaram os primeiros enxames de abelhas europeias no Brasil, em 1829, basicamente as nativas foram deixadas de lado. Os grandes responsáveis pela preservação dos conhecimentos ligados a estes animais foram os povos indígenas e os sertanejos, tanto os do Brasil como os do México (segundo país em diversidade de espécies da tribo Melipona).  Apenas em 1953 haveria uma reviravolta, quando o Dr. Paulo Nogueira-Neto (considerado o pai da atividade de criação de abelhas nativas), publicou a “A criação de abelhas indígenas sem ferrão”, cunhando o termo “meliponicultura” para opor a criação de nativas à apicultura. No livro também foi desenvolvido os primeiros passos para a criação racional de abelhas do Brasil – visando diminuir o sofrimento das abelhas e propiciar melhor produtividade em relação aos métodos rústicos. A criação, porém, estava legalizada apenas para fins científicos.

O movimento que permitiu as mudanças que ampliariam as possibilidades de criação a partir de 2004, começou a crescer de maneira significativa com a Constituição Federal de 1988. Eram pessoas e organizações que vinham buscando a inclusão produtiva de formas de produção e produtos marginalizados, tais como os méis de abelhas nativas e alimentos artesanais. Em 2002, esse movimento alcançaria importantes vitórias no que tange ao reconhecimento do direito dos povos tradicionais aos seus territórios e mudanças que fariam da ANVISA um órgão com tendências menos punitivas e mais orientativas, além de uma abertura de diálogo no Ministério da Agricultura para incluir estes produtos “fora de escala”.

Em 2004, finalmente, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) aprovou a Resolução nº 346 de 16/08/2004 – tornando, assim, possível a criação das abelhas nativas por pessoas físicas. Porém, há ainda muito o que se avançar. O mel das abelhas nativas, por exemplo, não pode ser chamado de mel pelas regras brasileiras: as características físico-químicas do mel são baseadas no mel das Apís. Como os meles de abelhas nativas possuem umidade superior a 20% e menos de 65% de açúcares redutores, acabam sendo jogados para a clandestinidade. Isso faz com que alguns estados, na falta de uma lei nacional sobre o tema, acabem criando suas legislações próprias para permitir a comercialização desses produtos.

Abelha Mirim preguiça (Friesella schrottkyi). Podemos ver a rainha e as operárias sobre os potes de mel. Fonte: @entreespinhoseferroes.

A alta gastronomia descobriu há alguns anos o universo do mel de abelha nativa. Restaurantes de chefes famosos, como os de Alex Atala, já possuem pratos com méis de abelhas do Brasil. De maneira geral, pode-se dizer que o mel é bem mais líquido, existindo em diversas cores e sabores que vão do azedo ao caramelo.  Gastronomicamente estes produtos são infinitamente superiores ao mel apícola, possuindo diversas notas de sabor e aromas que aquele jamais conseguirá atingir. Mesmo que com as abelhas Apís o tipo de flor visitada influencia no sabor do mel, nas nativas, além da variação florística há a variante espécie: cada uma produz mel com enzimas próprias e, consequentemente, sabores próprios. Entra também variáveis associadas à fermentação provocada pelas próprias abelhas: é um mundo infinito. Muitos estudos também têm mostrado o grande potencial medicinal deste produto das abelhas.

Além da polinização e além do mel, as abelhas nativas produzem diversos outros subprodutos de importância: própolis, geoprópolis, batume, “pão de abelha” (um polén fermentado repleto de propriedades) e mais um mundo de possibilidades ainda pouco estudados.

Pode-se falar também do potencial de educação ambiental com abelhas nativas, em que estes animais funcionam como excelentes instrumentos exemplificativos da intricada rede a qual todos nós estamos ligados e somos interdependentes, chamado planeta Terra. A ideia é que esse texto mostre um pouco isso.

Vale lembrar que a maioria das espécies brasileiras vivem em cavidades de árvores: para haver cavidades de tamanho suficiente para um enxame se instalar, são necessárias também árvores grandes. Estas árvores grandes estão associadas principalmente às florestas antigas. Além disso, muitas espécies nativas são exigentes quanto à qualidade ambiental, necessitando de alta umidade e grande diversidade de flores. Sem floresta em pé, muitas abelhas acabam desaparecendo dos seus ambientes. Em Juiz de Fora, por exemplo – cidade da Zona da Mata de Minas Gerais que representa bem a destruição da Mata Atlântica – as icônicas uruçus amarelas já não são vistas na natureza pelo menos desde a década de 70. Mesmo que a Meliponicultura sirva como um importante instrumento de preservação e multiplicação de enxames, é preciso de enxames na natureza para que haja qualidade genética entre as populações. Sem mata não há abelha e sem abelha não há mata.

Abelha representa diversidade e floresta em pé, consumir produtos e subprodutos de abelha nativa é um ato de soberania alimentar. Cabe a cada um de nós buscar formas de proteger e valorizar os conhecimentos ligados à produção e à criação das abelhas. Você mesmo pode começar a criar abelhas na sua casa! É bem capaz, inclusive, que tenha algum “tubinho” de jataí na parede da sua casa ou dos vizinhos. Dê uma pesquisada sobre elas. E então, na próxima vez que olhar uma abelha, lembre-se da importância desse bater de asas para milhares de pessoas e para a vida no planeta.

Referências:

COSTA, C. (27 de Junho de 2018). Na contramão de Europa e EUA, Brasil caminha para liberar mais agrotóxicos. Fonte: BBC: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44621328

FIDALGO, J. (28 de Setembro de 2011). A abelha é nativa; o mel, clandestino. Fonte: Estadão: https://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-abelha-e-nativa-o-mel-clandestino,4671

GRIGORI, P. (16 de Março de 2019). Meio bilhão de abelhas morreram no Brasil — e isso é uma péssima notícia. Fonte: Exame: https://exame.abril.com.br/brasil/meio-bilhao-de-abelhas-morreram-no-brasil-e-isso-e-uma-pessima-noticia/

IMPERATRIZ-FONSECA, V.L. & NUNES-SILVA, P. As abelhas, os serviços ecossistêmicos e o Código Florestal Brasileiro. Biota Neotrop. 10(4): http://www.biotaneotropica.org.br/v10n4/pt/abstract?article+bn00910042010.

Resolução CONAMA nº 346 de 16/08/2004

SILVA, W. P., & DA PAZ, J. R. (15 de Agosto de 2012). Abelhas sem ferrão: muito mais do que uma importância econômica. Natureza On line.

Autor convidado: João Luís Lobo

Estudante de Direito da UFJF, João cria e estuda abelhas sem ferrão desde 2012. Ele também é articulador nacional dos Coletivos Jovens de Meio Ambiente e atua como educador ambiental no Jardim Botânico da UFJF. Instagram: https://www.instagram.com/entreespinhoseferroes/