Durante esse período de quarentena me dei uma pequena-grande tarefa: conhecer, de uma maneira detalhada, tudo o que diz respeito à Mitologia Grega. E é claro que eu falhei. Incrível como podemos ser tão ingênuos, não é mesmo? Quando tentei buscar as primeiras bibliografias, me deparei com uma série de poemas clássicos. Antes de me aventurar sobre a poética de Homero e Hesíodo – que são as melhores fontes para entendermos a origem dos deuses e do cosmo – tentei procurar textos de apoio e livros que compilassem os mitos, as histórias, os heróis, reunindo informações sobre os Estudos Clássicos. Assim, eu teria uma boa base greco-romana para começar. E, sobre isso, dá pra compartilhar um pouquinho por aqui!

O Olimpo, de Luigi Sabatelli.

Conforme denota Thomas Bulfinch, em seu livro “A idade da fábula”, impresso nas novas edições como “O livro de ouro da mitologia”, não há, nos dias de hoje, sociedades que cultuam as religiões da Grécia e Roma antigas. Assim, a mitologia grega não mais pertence, de forma restrita, aos estudos da Teologia, mas também das Literaturas e das Artes. Isso nos faz pensar, assertivamente, que podemos interpretar as obras de maneiras diferentes, dependendo do momento em que vivemos. No contexto histórico e cultural da antiguidade, ouvir um fragmento de um poema que continha a ira de Zeus, o deus dos deuses, poderia despertar terror no ouvinte, e suscitar em um sacrifício, uma tragédia. Por outro lado, se lermos o mesmo poema hoje, certamente não o tomaremos como verdade, mas sim, como parte de uma construção ficcional, relacionada ao mundo das Artes. Dessa forma, a ideia de o que é ficção e o que não é ficção pode ser definida pelo contexto. Tais reflexões vagueiam pelas entranhas dos Estudos Literários, tirando o sono de muitos estudantes de Letras.

Mas afinal, qual a relação entre mito e ficção? E entre mito e realidade? Ou melhor: o que diabos é um mito?

Instigado pelos questionamentos acima, vou tentar percorrer um caminho que busque responder às perguntas, ao mesmo tempo em que abre alas para o mito de Prometeu e Pandora. Bora lá!

Considerados, pelo senso comum, como simples “contos de fada” ou “ficção”, os mitos possuem raízes complexas e se fazem presentes em praticamente todas as sociedades humanas, ainda nos tempos de hoje. Segundo pontuam as professoras Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Pires, há “componentes míticos no carnaval e no futebol, ambos como manifestações delirantes do imaginário nacional e da expansão de forças inconscientes”. De certa forma, os mitos podem exprimir princípios fundamentais do desejo humano e, por conta disso, também são pilares dos estudos da Psicologia.

A sociedade grega clássica, por sua vez, centrava suas ações, individual e coletivamente, na existência dos mitos, os quais estão presentes em todas as atividades do espírito. Como denota o professor Junito Brandão, que foi um dos maiores classicistas brasileiros, citando Barthes, diz que “mesmo os filósofos, quando o raciocínio atingiu o seu limite, recorreram a ele como a um modo de conhecimento capaz de comunicar o incognoscível”. O mito, portanto, pode ser compreendido como manifestações mundanas daquilo que se considera sagrado. Propondo a intervenção de criaturas sobrenaturais, os mitos narram como uma determinada realidade passou a existir. Dessa forma, está sempre relacionado ao contexto da criação. Utilizando o pensamento mítico, é por conta das tais criaturas sobrenaturais que os seres humanos são do jeito que são hoje: mortais, sexuados e culturais. Para maiores detalhes desses conceitos, sugiro o arquivo de Mircea Eliade, disponibilizado nas referências.

Com base nesse contexto, muitos foram os mitos surgidos na Grécia Antiga. Darei um foco especial neste texto à criação do homem e da mulher: a estória de Prometeu e Pandora.

Prometeu era um dos titãs, uma raça que antecede os deuses gregos (possivelmente escreveremos outros posts para falarmos desse assunto). Prometeu e seu irmão Epimeteu foram designados para criarem as criaturas mortais, habitantes da Terra. Prometeu criou as criaturas, enquanto que Epimeteu se incumbiu de atribuir-lhes as mais variadas características: asas para os pássaros, presas aos leões, odor às plantas e etc. Quando chegou a vez do homem, Prometeu o teria moldado a partir de um pouco de água e terra (o barro). E então, Epimeteu percebeu que todo seu estoque de características havia se esgotado. Seu irmão Prometeu, com a ajuda da deusa Minerva (também chamada de Atena), conseguiu subir aos céus e roubar uma centelha do fogo divino. Quando voltou, deu-a de presente para homens, o quais, conforme reza a lenda, tiveram assegurada a sua superioridade em relação aos outros animais. O fogo, nesse sentido, engloba as mais variadas significações: desde a criação, o aquecimento, o lar – e a lar-eira – até a destruição, a queima e as cinzas.

Prometeu modelando o homem do barro. Imagem do site Superinteressante.

A mulher ainda não fora criada. Muitas são as versões de continuação desse mito. Uma delas é de que Júpiter (Zeus), o deus dos deuses, resolve punir Prometeu e os homens pelo furto do fogo divino. Assim, Prometeu foi acorrentado para sempre num rochedo, enquanto uma águia, enviada por Zeus, devorava seu fígado todos os dias, o qual se regenerava durante a noite. A ideia do fígado nessa passagem merece atenção, já que os gregos, ao contrário de nós, entendiam que o fígado simboliza a centralidade da vida. Para nós, hoje, esse papel é do coração. O castigo de Zeus para os homens, por sua vez, consistiu na criação da mulher. Sobre isso, assim narra Junito Brandão:

“Zeus ordenou a seu filho Hefesto que modelasse uma mulher ideal, fascinante, semelhante às deusas imortais. Pandora, a primeira mulher modelada em argila e animada por Hefesto, que, para torná-la irresistível, teve a cooperação preciosa de todos os imortais. Atena ensinou-lhe a arte da tecelagem, adornou-a com a mais bela indumentária e ofereceu-lhe seu próprio cinto; Afrodite deu-lhe a beleza e insuflou-lhe o desejo indomável que atormenta os membros e os sentidos; Hermes, o Mensageiro, encheu-lhe o coração de artimanhas, imprudência, astúcia, ardis, fingimento e cinismo; as Graças divinas e a augusta Persuasão embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro e as Horas coroaram-na de flores primaveris.” (BRANDÃO, p.168).

Ao final, Hermes deu Pandora de presente a Epimeteu, o qual a aceitou sem muitos questionamentos. Tudo corria bem, até que Pandora abriu a caixa que trouxe de presente a Epimeteu. Dessa caixa, saíram, rapidamente, todas as desgraças e calamidades, que até hoje corrompem os seres humanos. Pandora tenta rapidamente fechar a caixa, deixando presa apenas uma única coisa: a esperança.

Pandora Abre a Caixa, de Walter Crane.

Com isso, os gregos entendiam que com o surgimento de Pandora, a primeira mulher, iniciou-se a degradação de toda a humanidade.

É praticamente impossível não relacionarmos o mito de Prometeu e Pandora ao mito de Adão e Eva, do Livro de Gênesis, do Antigo Testamento. Ambos carregando consigo concepções que fortalecem o patriarcado e atribuem a desgraça e o sofrimento da humanidade à mulher. Precisamos lê-los de formas críticas e responsáveis.

Pretendo trazer mais textos sobre mitologias aqui. É um assunto trabalhoso, mas profundamente enriquecedor. Se gostaram, digam Uhaaaaa!

Referências:

ARANHA, M. d., & MARTINS, M. P. (2008). Filosofando – Introdução à Filosofia. Moderna.

BRANDÃO, J. d. (1986). Mitologia Grega. Petrópoles: Vozes.

BULFINCH, T. (2001). O livro de ouro da Mitologia: História de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro.

ELIADE, M. (2019). Mito e Realidade. Perspectiva.

Por: Átila Soares.