O ano de 2020 chegou com muitos acontecimentos inesperados no Brasil e no mundo. Me arrisco a dizer que talvez a reflexão mais importante desse período seja sobre a transparência e a relevância da Prática de Saúde Baseada em Evidências (científicas). Destaco, aqui, a ciência e seus níveis de evidência.

Fonte: Google Imagens

O medicamento (cujo nome prefiro não citar mais) – comumente utilizado para tratar malária causada por algumas espécies de Plasmodium – ficou famoso nos últimos meses por ter demonstrado resultado preliminar em estudos in vitro, aqueles com o menor nível de evidência científica e que, portanto, não são suficientes para embasar protocolos clínicos de tratamento para COVID-19. Além disso, relatos de cura mediante o uso desse medicamento tem sido frequentes. No entanto, estudos clínicos bem conduzidos com poucos erros sistemáticos já demonstraram que não há redução da gravidade clínica ou do número de óbitos causados por essa nova doença. A minimização de vieses nos estudos epidemiológicos é importante para que não haja interpretações errôneas do que acontece na realidade. Por exemplo, se todas as pessoas curadas da COVID-19 beberam água regularmente, obviamente, não se deve afirmar que a água é o agente terapêutico efetivo. Ah, também não existem ensaios clínicos randomizados que avaliaram a eficácia da ivermectina para prevenção ou tratamento dessa infecção viral.

Mesmo após a ausência de evidências científicas de alto nível relacionadas ao Novo Coronavírus que respalde a utilização efetiva e segura, a defesa do uso desses medicamentos parece ser o principal motivo de discórdia entre o senhor Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, (ex) ministros da saúde, enfermeiros, farmacêuticos e médicos.

Infelizmente, o senhor Jair também tem contrariado as recomendações das autoridades de saúde, como a OMS, em relação ao distanciamento social e uso de máscaras. Ele, vendo a seca (financeira) castigar, vai ao Lago Paranoá se refrescar durante a quarentena. Sem prancha. Com jet ski.

É importante não se acostumar com o placar

As principais notícias transmitidas pela televisão, rádio e redes sociais informam o placar diário de mortes causadas pela COVID-19 que, infelizmente, tem crescido no Brasil. O número, apesar de grande, ainda é mentiroso.

A escassez de testes diagnósticos (tipo RT- PCR) é um dos problemas de saúde pública que persiste desde o início da epidemia em nosso país e, consequentemente, os óbitos causados por essa doença infecciosa só são contabilizados em caso de teste positivo. Por outro lado, o sistema InfoGripe da FIOCRUZ indica que a quantidade de óbitos por pneumonia e SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) cresceu muito em relação ao mesmo período em anos anteriores. É provável que esse aumento seja causado pela ausência de diagnóstico confirmatório de COVID-19. Nesse sentido, caminhamos no escuro com apenas um palito de fósforo aceso, ou seja, não sabemos exatamente qual é o número na realidade. Só sabemos que ele é bem maior do que aquele que é divulgado.

Além disso, é preciso cautela com a realização de testes sorológicos (ou rápidos) – aqueles que detectam anticorpos – oferecidos pelos laboratórios de análises clínicas e drogarias. Além do preço exorbitante de aproximadamente R$250, existe a possibilidade de resultados falso negativos se realizado próximo ao dia da provável infecção, já que é necessário que o corpo produza anticorpos contra o vírus. Dessa forma, o resultado negativo não significa que você pode ignorar o placar e retornar ao “jogo” normalmente sem achar que não está perdendo.

Todo mundo terá acesso à vacina contra a COVID-19?

O tempo despendido no desenvolvimento tradicional de uma vacina é longo devido à complexidade do processo. Existem várias etapas baseadas no princípio da bioética Primum non nocere, que significa “primeiro, não faça mal”, a serem realizadas antes que a tecnologia seja produzida em larga escala.

A primeira etapa é a exploratória, que serve para identificar propostas de novas vacinas. Em seguida, testes pré-clínicos são feitos em células e em animais para verificar toxicidade, atividade imunogênica e formulação ideal. Se os resultados se apresentarem promissores, os testes prosseguem para as fases clínicas denominadas fase I, fase II e fase III. Na fase I, o parâmetro de segurança é avaliado em cerca de 20 a 100 pessoas saudáveis. Na fase II, segurança e eficácia são avaliadas em cerca de 100 a 200 pessoas. A fase III, última etapa que precede a aprovação do registro sanitário, avalia segurança e eficácia por meio de estudos realizados em vários lugares com mais de 1000 pessoas.

Após a aprovação do produto e disponibilização ao mercado, os estudos de fase IV, também conhecidos como farmacovigilância, são necessários para identificação de eventos adversos previamente desconhecidos ou fatores de risco relacionados. Cada etapa precede necessariamente a outra e pode durar anos. No entanto, muito além de desenvolver e comercializar, é garantir o acesso.

Acesso: substantivo que nos traz muitas reflexões nesse contexto de pandemia. Deixo aqui algumas delas. Se as vacinas que estão em fase de teste atualmente forem promissoras – todos nós torcemos por isso – e chegarem a fase de aprovação e comercialização, o que te leva a pensar que ela será gratuita ou produzida em escala mundial?

Se essa tecnologia inovadora for patenteada, o licenciamento será não exclusivo (mais de uma indústria poderá produzir)? Ou terá preço exorbitante devido ao monopólio de 20 anos concedido pela Lei de Propriedade Industrial? Qual é o preço justo? Como se define o preço justo?

Apenas a parcela da população brasileira que possui um jet ski terá acesso?É pensando nessas questões que sempre defenderei a importância do investimento na pesquisa nacional, aquela feita dentro das universidades públicas e laboratórios públicos. Afinal, o SUS possui um compromisso coletivo em relação à nossa saúde. Indústrias privadas, não.

Autora convidada: Alícia Moreira

Alícia é estudante de graduação em Farmácia na UFMG. Além de defensora do SUS, ela escreve textos sobre uso seguro de medicamentos para o blog do Centro de Estudos do Medicamento da UFMG.

Referências:

Soares, I. Após cancelar churrasco, Bolsonaro curte dia de jet ski no Lago Paranoá. Correio Braziliense, 2020. [acesso em 3 de julho de 2020].

Agência Nacional de Vigilância Sanitária.Covid-19: saiba mais sobre testes rápidos. ANVISA, 2020. [acesso em 3 de julho de 2020]. Disponível em: https://cutt.ly/WobwDU1

FIOCRUZ. InfoGripe. [acesso em 3 de julho de 2020]. Disponível em: http://info.gripe.fiocruz.br/

Faculdade de Ciências Médicas. Quais são as fases da pesquisa clínica? Unicamp. [acesso em 3 de julho de 2020] Disponível em: https://www.fcm.unicamp.br/fcm/cpc-centro-de-pesquisa-clinica/pesquisa-clinica/quais-sao-fases-da-pesquisa-clinica