Por indicação de Mellory Ferraz, do canal Literature-se, no YouTube, resolvi iniciar minhas leituras de Virgínia Woolf por Orlando: uma biografia. Confesso que assim que comecei a leitura, me vi completamente carregado nas costas pela sensível narração da vida do jovem Orlando. “Ele – pois não poderia haver dúvida quanto ao seu sexo”, nos é apresentado enquanto golpeava a cabeça decepada de um mouro, morto por seus antepassados e suas claras ambições viris. Essas últimas, também reservadas a Orlando, que jurava ver naqueles gestos o seu destino. Seus familiares eram nobres desde tempos imemoriais – nos conta o narrador-biógrafo, que parecia integrar a cena, descrevendo-a com os detalhes dignos de sua onisciência.

Logo nesse início, fisgado como um peixe no anzol narrativo, me lembrei atentamente das palavras de um dos mais famosos críticos literários modernos: Terry Eagleton. Em seu livro Como ler Literatura, ele comenta sobre como os autores tentam dar o melhor de si nos primeiros parágrafos, tomados pelo desejo de impressionar e capturar o leitor. Nesse sentido, trago aqui o primeiro parágrafo de Orlando, afim de que possamos tecer algumas considerações:

“Ele – pois não poderia haver dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época contribuísse para disfarçá-lo – estava golpeando a cabeça de um mouro pendurada nas vigas do teto. Era da cor de uma velha bola de futebol e mais ou menos de igual formato, exceto pela face encovada e alguns fios de cabelo crespos e secos, como os pelos de um coco. O pai de Orlando, ou talvez seu avô, tinha cortado do tronco de um avantajado pagão que saltara diante dele numa noite de luar nas terras bárbaras da África, e agora balançava de leve, sem cessar, na brisa que nunca parava de soprar nos cômodos do sótão da gigantesca casa do senhor que o matara.” (WOOF, 2018, p.47).

Nesse descortinamento inicial da história, temos contato com muitas das temáticas abordadas abundantemente ao longo do livro. A primeira delas, escancarada na primeira palavra, Ele, seguida de um comentário pontual do narrador-biógrafo, o qual já sabe o que ocorreria logo a frente, discorre sobre o indubitável sexo masculino do protagonista. Ponto central da narrativa, a masculinidade de Orlando é entrecortada quando, no capítulo 3, após dormir por longos dias e noites, Orlando acorda mulher. Falaremos de sua transformação repentina e misteriosa mais à frente no texto. Além desse ponto, o primeiro parágrafo da obra faz menção à casa em que Orlando vivia, posteriormente herdada de seus pais, e que ocupa espaço crucial no desenrolar da trama. Sobre seu apego à gigantesca propriedade, podemos lê-lo, inclusive, em seu nome: Or-land-o, já que em inglês, land significa terra.

Esse teor poético e ambíguo proposto por Virgínia Woolf talvez seja uma das características de seus romances. De certa forma, nossa personagem compartilha também ambições literárias, tendo escrito vários poemas ao longo de sua vida: Orlando é um(a) escritor(a). Por conta disso e do entrelaçamento entre narrador e personagem, somos constantemente abençoados com passagens profundas sobre o “fazer literário”. 

Logo após as apresentações do ambiente ficcional e suas personagens, o biógrafo deixa escapar o século em que começa a contar a história de Orlando: o século XVI. Mais pra frente do livro percebemos que há algo muito estranho com o fluxo de tempo da história, afinal de contas, o então garoto do século XVI atinge sua idade adulta no século XVII e nos acompanha, viva (após sua transformação em mulher), até o fim da obra, no século XX. Sim, passam-se em torno de 400 anos. Mágicas do “fazer literário”.

Sobre a narrativa dos fluxos e a identidade de Orlando

A maneira através da qual a história de Orlando é narrada parece muito importante para que possamos compreender certas passagens. Como já foi dito anteriormente, o leitor (nós) lê os escritos de um biógrafo que, ao desenrolar do enredo, descobrimos que vive na modernidade, em meados de 1928 (o mesmo ano em que Woolf escreve o livro). O mesmo aproveita algumas brechas na narrativa para tecer reflexões sobre seu próprio papel, seus deveres na construção do livro, e sua fidedignidade aos fatos apresentados. Aí vai um trecho do segundo capítulo:

“Agora o biógrafo enfrenta uma dificuldade: será melhor confessar que existe ou fingir o contrário? Até aqui, ao narrar a vida de Orlando, documentos particulares e históricos permitiram cumprir o primeiro dever do biógrafo, que é seguir, sem olhar para a direita ou a esquerda, as pegadas indeléveis da verdade, não se deixando atrair pelas flores, sem dar atenção às sombras […].” (WOOLF, 2018, p.89).

O trecho acima é muito curioso, haja vista que se trata de uma reflexão sobre o próprio ato de escrever a biografia de Orlando. Entretanto, percebemos posteriormente que a narrativa toma um rumo que escapa completamente daquilo que se considera “biográfico” ou facilmente documentado historicamente. Isto se deve ao fato de o narrador se aventurar pelas vivências profundas da subjetividade da personagem, visando, mais do que o correr histórico e as diferenças entre o mundo do século XVI e o XX, as experiências internas da personagem: sua(s) identidade(s). É por isso, também, que a própria passagem do tempo histórico – os 400 anos ou mais – se torna elemento secundário. Em outras palavras, a narrativa é focada, na maior parte das vezes, na mente e desejos de Orlando (seu mundo interior), ao invés de em seu mundo exterior.

Muita coisa acontece, enquanto o biógrafo nos narra a história com seu esteticismo galopante. Porém, um dos acontecimentos é crucial que detalhemos aqui. Após desilusões amorosas e tensões psicológicas, Orlando pede ao Rei Carlos que o enviasse como embaixador em Constantinopla (atual Istambul). Lá ele prepara uma grande festa para comemorar a cerimônia que o concede o título de duque, um dos mais elevados graus da nobreza. Ao fim da calorosa festa, nosso duque se recolhe em seus aposentos. O narrador, com grandes ressalvas ao longo dos parágrafos, cumpre seu papel alertando-nos de que um estranho fenômeno estava para acontecer, dizendo-nos que Orlando dormiu por sete noites seguidas. Sim, um longo cochilo (ou transe como chama o biógrafo). Ao se levantar, na manhã do sétimo dia, o espanto foi geral: era uma mulher.

Espreguiçou-se. Levantou-se. Ficou de pé diante de nós, sem roupa nenhuma, e, enquanto as trombetas rugiam Verdade” Verdade! Verdade!, não temos escolha senão confessar – era uma mulher.” (WOOLF, 2018, p.142).

E mais curiosas ainda, talvez fossem as palavras acrescentadas logo em seguida, dizendo que “Orlando se olhou de cima a baixo num longo espelho sem mostrar nenhum sinal de inquietação, e caminhou presumivelmente para o banho”. Conforme nos narra o biógrafo, nossa personagem, em uma ação inconsciente e impossível de ser explicada racionalmente, não demonstrou nenhuma estranheza em ter dormido homem e acordado mulher. Era como se nada tivesse acontecido. A identidade de Orlando se mantivera.

Após os acontecimentos narrados acima, fica mais claro a cada página que, apesar do sujeito uno e não mutado pela transformação de gênero, Orlando são muitas(os). E, talvez, justamente essa múltipla persona é o que constitui a sua unidade identitária. Em um exercício de raciocínio curioso, o narrador nos apresenta a algumas “teorias de filósofos” que nos levam a pensar que os comportamentos femininos estariam relacionados ao uso ou não de roupas femininas. Segundo eles, os tais filósofos, as roupas “alteram nossa forma de ver o mundo e de sermos vistos pelo mundo”, de modo que pensamos que elas “é que nos usam, e não nós que as usamos”. No parágrafo seguinte o narrador completa refutando, de maneira milmaravilhosa, o posicionamento apresentado:

“Essa é a opinião de alguns filósofos e sábios, porém, de modo geral, nos inclinamos por outra. A diferença entre os sexos, felizmente, tem maior profundidade. As roupas simbolizam apenas algo muito bem escondido. Foi uma mudança nela própria [em Orlando] que ditou a escolha pelos trajes femininos e pelo sexo feminino. […]. Pois aqui, mais uma vez, nos defrontamos com um dilema. Apesar de diferentes, os sexos se misturam. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro, e frequentemente são apenas as roupas que sustentam a aparência masculina e feminina, enquanto, por baixo delas, o sexo é o oposto do que se vê na superfície.” (WOOLF, 2018, p.179).

Além das considerações relativas à identidade de Orlando e ao fluxo da narrativa, é inegável que, no meio disso tudo, há um grande zelo pela manifestação do tempo na obra. Afinal de contas, Sir/Lady Orlando vive por mais de 300 anos, apesar de que temos impressão de ser uma vida com “duração normal”. Essa dicotomia entre o tempo histórico e o tempo do sujeito é materializada na página 267, em que há uma grande reflexão sobre a duração da vida de uma pessoa. Vejamos (juro que é a última citação):

“[…] não se pode negar que os mais bem-sucedidos praticantes da arte de viver, diga-se de passagem quase sempre pessoas desconhecidas, de algum modo conseguem sincronizar os sessenta ou setenta tempos diferentes que operam simultaneamente em qualquer sistema humano normal […]. Deles se pode dizer com justiça que viveram precisamente os sessenta ou oitenta ou setenta e dois anos registrados na lápide. Dos demais, alguns sabemos estarem mortos, embora circulem em nosso meio; alguns não nasceram ainda, embora assumam todas as formas de vida; outros têm centenas de anos, embora admitam ter apenas trinta e seis. A verdadeira duração da vida de uma pessoa, conste o que constar no Dictionary of National Biography, é sempre discutível.” (WOOLF, 2018, p.267).

Essa reflexão nos aparece quando, já próximos do final do livro, em meados de 1928 (no tempo histórico da narrativa), Lady Orlando assume que “o tempo a alcançou” e ela chegou à meia-idade.

E aí?

Bom, certo de ter deixado muitas lacunas sobre o livro ao longo deste texto (e novamente terminá-lo sem um final), deixo abaixo um vídeo de uma palestra sobre Orlando: uma biografia, no Café Literário, em junho de 2012. Tenho certeza de que os que chegaram até aqui irão gostar. Agora, sobre as lacunas dos meus comentários ao longo do texto, digamos que ainda preciso pensar melhor sobre isto.

O vídeo:

Referências:

MELO, A. L. (2014). Sobre a atualidade de Orlando, de Virginia Woolf. Revista Igarapé.

WOOLF, V. (2018). Orlando: uma biografia. São Paulo: Companhia da Letras.

Por: Átila Soares.