Em março de 2020, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse em um de seus pronunciamentos: “Ninguém sabia que haveria uma pandemia ou uma epidemia nessa proporção”. Certamente, a esmagadora maioria da população, que vivia suas vidas normalmente, não esperava que o início da nova década fosse marcado por uma catástrofe na saúde, capaz de mudar sensivelmente o modo de vida terrestre. Mas será mesmo que ninguém sabia ou poderia imaginar tal cenário?

Na série “Explicando… o Coronavírus”, lançada pela Netflix, há um depoimento do empresário Bill Gates, de maio de 2019, meses antes do surgimento do primeiro caso de covid-19, no qual ele faz a seguinte afirmação:

Pensando em algo que pudesse matar milhões de pessoas, nosso maior risco é uma pandemia. A economia pararia, os custos à humanidade seriam inacreditáveis e nenhum país seria imune aos problemas que isso causaria.

Sendo assim, por que o mundo não foi avisado desse risco? Na verdade, há alertas constantes sobre essas questões. Todos os anos, cientistas, pesquisadores e autoridades apontam o perigo vigente em problemas ambientais mundiais. Aquecimento global, derramamento de petróleo, desmatamento, queimadas, emissão de gases que aumentam o efeito estufa – tudo sistematicamente ignorado pelos governos mundo a fora.

A indiferença dos países diante dos alertas da ciência é bastante influenciada pelo capitalismo, pois as mudanças necessárias para evitar catástrofes, como pandemias, requerem esforços capazes de reduzir os lucros dos principais detentores do capital. Ano passado, no Brasil, Ricardo Galvão, cientista e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi exonerado após a divulgação dos exorbitantes índices de desmatamento na Amazônia, dados contestados e ridicularizados pela presidência.

O interesse em conter a atenção sobre a devastação ambiental, partindo de um governo alinhado ao liberalismo conservador, pode decorrer do fato de a extração indiscriminada de madeira, principalmente ilegal, e as queimadas, favorecerem grandes empresas e o monopólio de latifundiários. Evidência disso é a matéria publicada no G1 em 2018, baseada em um estudo da revista científica Science, que aponta companhias de commodities (agronegócio, mineração e celulose) como responsáveis pela maior parte do desmatamento na América Latina.

Fonte: G1

E qual a relação entre impacto ambiental e pandemias?

Existe grande diversidade de vírus em animais pelo mundo. De acordo com o Dr. Peter Daszak, presidente da Ecohealth Aliance, ONG focada em prevenir pandemias e promover a conservação ambiental, estima-se a existência de 1,5 milhões de vírus selvagens não conhecidos. Ao entrarem em contato com o ser humano, eles podem se modificar e produzir novos vírus infectantes capazes de provocar doenças.

O encontro entre agente infeccioso e ser humano pode se dar em diversas situações. Conforme o Dr. Peter, a linha de frente no surgimento de doenças são os pontos de contato entre a civilização e a floresta tropical, por exemplo, onde existem garimpos. Em locais assim, ocorre desmatamento e caça de animais, promovendo o convívio entre humano e espécies portadoras de vírus desconhecidos potencialmente patogênicos, os quais podem gerar um epidemia ou pandemia. Dessa forma, o avanço floresta adentro causando destruição é um risco tanto à saúde do planeta quanto à saúde humana.

Além dos perigos oferecidos pelo desmatamento propriamente dito, há os malefícios decorrentes de outras atividades econômicas, como a pecuária, que também produzem danos ambientais robustos e contribuem para o surgimento de novas doenças.

O vírus SARS-CoV, que causou um surto de doenças respiratórias em 2002, surgiu em um mercado de animais vivos na China e tudo indica que o SARS-CoV-2 tenha aparecido de maneira semelhante. Há também a suspeita de que o vírus da gripe de 1918 (H1N1) teve origem a partir da combinação, em um porco, entre o vírus que causava gripe em humanos e o vírus da gripe de galinhas.

Sob essa perspectiva, os mercados de animais vivos dão oportunidade para os vírus se misturarem, sofrerem mutação e infectarem humanos, assim como qualquer aglomeração de animais em granjas, locais de confinamento de bovinos e suínos, abatedouros e similares.

A partir desses esclarecimentos, cabe a análise de algumas questões. O Brasil se orgulha por ser um dos maiores exportadores de carnes e de soja do mundo. Porém, a produção desenfreada desses alimentos gera uma série de impactos ambientais e aumenta o risco de novas epidemias e até pandemias, enquanto beneficia muito mais uma oligarquia latifundiária do que a maior parte da população. O próprio caos instalado no mundo atualmente serviu para enriquecer mais ainda sujeitos previamente milionários, o que provoca o questionamento: a quem interessa a preservação ambiental e a prevenção de pandemias?

Lembrando do que escreve Ailton Krenak em “O amanhã não está à venda”, esse vírus está discriminando a humanidade, enquanto a natureza segue indiferente à presença dele. O SARS-CoV-2 responde à exploração promovida pelo ser humano atacando a sua forma de vida insustentável. Com ele, a humanidade deveria aprender, pelo menos, a deixar de ser uma espécie parasita no planeta e se entender como parte desse grande organismo.

Referências:

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. Companhia das Letras, 2020.

Explicando… o Coronavírus. Netflix, 2020.

https://g1.globo.com/natureza/noticia/2018/09/13/empresas-produtoras-de-materia-prima-sao-ligadas-a-27-do-desmatamento-permanente-no-mundo-diz-estudo.ghtml. Acesso em: 24/11/2020, às 11:00.